Mostrar mensagens com a etiqueta Livros. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Livros. Mostrar todas as mensagens

sábado, abril 27, 2013

Inferno de Dan Brown



Um dos autores de bestsellers mais vendidos no mundo vai publicar o seu sexto romance, que terá o título "Inferno", a 14 de Maio deste ano. O herói será, mais uma vez, Robert Langdon, o mesmo de Anjos e Demónios, O Código Da Vinci e Símbolo Perdido.

A notícia chega através dos editores, que revelam que Robert Langdon se vai aventurar, de "gola alta, casaco de tweed e calças caqui" pelo "coração da Europa". O novo livro de Brown promete "um mundo angustiante, centrado numa das mais duradouras e misteriosas obras literárias" de sempre.

"Inferno" chega na primavera. O título foi revelado logo após o anúncio da data de lançamento pelos leitores, que tinham sido convidados a espalhar a data da publicação do novo romance nas redes sociais.

Ao postar as informações no Facebook ou no Twiter, usando a hashtag #DanBrownToday, as imagens de perfil dos leitores iam sendo utilizadas num gráfico da web que tornava o título cada vez mais claro, à medida que as imagens se iam juntando. A adesão massiva levou a que, ao fim de algum tempo, o site cedesse e, em vez da imagem esperada, se lesse "erro do servidor. Servidor de aplicativos mal configurado".

A página do Today Show publicou uma nota do editor dizendo que "o esmagador interesse no título mistério do novo livro de Dan Brown afectou, temporariamente, os servidores da HyperActivate, a empresa que gere o mosaico social dos media". E pedia aos leitores para voltarem mais tarde.

Pouco mais foi revelado sobre o livro, como a linha da história e outras personagens da trama. A editora apenas deixou no ar a hipótese de que o livro pudesse girar em torno de Dante, o autor de "Inferno", a primeira parte de uma das mais célebres obras da literatura, a Divina Comédia.

O último livro de Brown, O Símbolo Perdido, publicado em 2009, vendeu mais de um milhão de cópias nos Estados Unidos, Inglaterra e Canadá nas primeiras 24 horas.

Merchandising?

O que trará à tona de água desta vez, o autor mais desconcertante da América dos últimos anos?

São vários os sites que fazem uma espécie de preview do que poderá ser a nova obra de Dan Brown (aqui fica segundo a Cabana do Leitor, um cheirinho):



“As lembranças se materializaram lentamente, como bolhas vindo à tona da escuridão de um poço sem fundo.

Uma mulher com o rosto coberto por um véu.

Robert Langdon olhava para ela do outro lado de um rio cujas águas agitadas corriam vermelhas, tingidas de sangue. De frente para ele, na margem oposta, a mulher o encarava, imóvel, solene. Trazia na mão uma faixa azul, uma tainia, que ergueu em homenagem ao mar de cadáveres aos seus pés. O cheiro da morte pairava por toda parte.

Busca, sussurrou a mulher. E encontrarás.

Langdon ouviu as palavras como se ela as tivesse pronunciado dentro de sua cabeça. "Quem é você?", perguntou ele, sem que sua voz produzisse som algum.

O tempo urge, sussurrou ela. Busca e encontrarás.

Langdon deu um passo à frente, em direcção ao rio, mas então viu que as águas, além de ensanguentadas, eram profundas demais para que ele as atravessasse. Quando tornou a erguer os olhos para a mulher de véu, os corpos aos seus pés tinham se multiplicado. Eram agora centenas, milhares talvez, alguns ainda vivos, contorcendo-se de agonia, padecendo mortes inimagináveis... consumidos pelo fogo, enterrados em fezes, devorando uns aos outros. Podia ouvir os lamentos humanos ecoarem acima da água.

A mulher se moveu em sua direcção com as mãos esguias estendidas, como quem pede ajuda.

"Quem é você?!", gritou Langdon outra vez.

Em resposta, a mulher levou a mão ao rosto e ergueu lentamente o véu. Sua beleza era arrebatadora, porém ela era mais velha do que Langdon imaginara: 60 e poucos anos talvez, altiva e forte, como uma estátua atemporal. Tinha um maxilar anguloso, de aspecto severo, olhos penetrantes e intensos e longos cabelos grisalhos, cujos cachos lhe caíam em cascata sobre os ombros. Um amuleto de lápis-lazúli pendia de seu pescoço --uma serpente solitária enroscada em um bastão.

Langdon teve a sensação de que a conhecia, de que confiava nela. Mas como? Por quê?

Ela então apontou para duas pernas que brotavam da terra, se contorcendo. Aparentemente eram de alguma pobre alma enterrada até a cintura, de cabeça para baixo. Uma letra solitária escrita com lama se destacava na coxa pálida do homem: R.

R?, pensou Langdon, intrigado. R de... Robert? Será que esse... sou eu?

O rosto da mulher nada revelava. Busca e encontrarás, repetiu ela.

Subitamente, ela começou a irradiar uma luz branca... cada vez mais forte. Todo o seu corpo começou a vibrar com intensidade e, então, com um estrondo repentino, ela explodiu em mil faíscas.

Langdon acordou sobressaltado, aos gritos.

Estava sozinho no quarto iluminado. O cheiro pungente de álcool hospitalar pairava no ar. Ali perto bipes de máquina soavam em discreta sintonia com o ritmo de seu coração. Tentou mover o braço direito, mas uma dor lancinante o impediu. Olhou para baixo e viu que um cateter intravenoso repuxava a pele de seu antebraço.

Sua pulsação se acelerou e as máquinas acompanharam o ritmo, passando a emitir bipes mais rápidos.

Onde estou? O que aconteceu?

A nuca de Langdon latejava, uma dor torturante. Com cautela, ele ergueu o braço livre e tocou o couro cabeludo, tentando localizar a origem da dor de cabeça. Sob os cabelos emaranhados, encontrou as extremidades duras de uns dez pontos incrustados de sangue seco.

Fechou os olhos e tentou se lembrar de algum acidente.

Nada. Branco total.

Pense.

Apenas escuridão.

Um homem com roupa cirúrgica entrou apressado, aparentemente alertado pela aceleração dos bipes do monitor cardíaco de Langdon. Tinha barba desgrenhada, bigode cerrado e olhos bondosos que irradiavam uma calma atenciosa por baixo das sobrancelhas revoltas.

-- O que... o que houve? -- Langdon conseguiu perguntar. -- Eu sofri algum acidente?

O barbudo levou um dedo aos lábios e tornou a sair às pressas para chamar alguém no corredor.

Langdon virou a cabeça, mas o movimento fez uma pontada de dor atravessar seu crânio. Respirou fundo várias vezes e esperou a dor passar. Então, com cuidado e de forma metódica, examinou o ambiente estéril ao seu redor.

O quarto de hospital continha uma cama só. Não havia flores. Não havia cartões. Viu as próprias roupas em cima de um balcão próximo ao leito, dobradas dentro de um saco plástico transparente. Estavam cobertas de sangue.

Meu Deus. Deve ter sido grave.

Langdon girou a cabeça bem devagar em direção à janela ao lado da cama. Estava escuro lá fora. Era noite. A única coisa que ele conseguia ver no vidro era o próprio reflexo: um desconhecido abatido, pálido e exausto, ligado a tubos e fios e cercado por equipamentos hospitalares.

Ouviu vozes se aproximando pelo corredor e tornou a olhar para o quarto. O médico voltou, dessa vez acompanhado por uma mulher.

Ela parecia ter 30 e poucos anos. Usava roupa cirúrgica azul e tinha os cabelos louros presos em um rabo de cavalo grosso que balançava ao ritmo de seus passos.

-- Sou a doutora Sienna Brooks -- apresentou-se, abrindo um sorriso para Langdon ao entrar. -- Vou trabalhar com o Dr. Marconi hoje à noite.



Langdon assentiu com um débil meneio de cabeça.

Alta e graciosa, a Dra. Brooks se movia com a desenvoltura assertiva de uma atleta. Mesmo com aquela roupa folgada, conservava uma elegância esguia. Por mais que Langdon não percebesse nenhum traço de maquiagem, sua pele tinha uma suavidade incomum, a única mácula era uma pinta minúscula logo acima dos lábios. Os olhos, de um tom castanho suave, pareciam estranhamente penetrantes, como se houvessem testemunhado experiências de rara profundidade para alguém tão jovem.

-- O Dr. Marconi não fala inglês muito bem, então me pediu que preenchesse sua ficha de admissão -- disse ela, sentando-se ao seu lado. Voltou a sorrir.

-- Obrigado.

-- Certo -- começou ela, assumindo um tom de voz sério. -- Qual é o seu nome?

Ele precisou de alguns instantes.

-- Robert... Langdon.

Ela apontou uma lanterninha para seus olhos.

-- Profissão?

Ele respondeu ainda mais devagar:

-- Professor universitário. História da Arte... e Simbologia. Em Harvard.

A Dra. Brooks baixou a lanterna, mostrando-se surpresa. O médico de sobrancelhas revoltas pareceu igualmente espantado.

-- O senhor é americano?

Langdon a encarou com um olhar intrigado.

-- É só que... -- Ela hesitou. -- O senhor não tinha documento nenhum quando chegou. Como estava de paletó de tweed da Harris e sapatos sociais, imaginamos que fosse britânico.

-- Eu sou americano -- assegurou-lhe Langdon, exausto demais para explicar sua preferência por alfaiataria de qualidade.

-- Está sentindo alguma dor?

-- Na cabeça -- respondeu Langdon, o latejar em seu crânio agravado pelo brilho forte da lanterna. Felizmente, a médica a guardou no bolso e pegou seu pulso, para medir os batimentos. -- O senhor acordou gritando -- falou. -- Consegue se lembrar por quê?

Langdon voltou a ter um lampejo da estranha visão da mulher de véu, cercada de corpos em agonia. Busca e encontrarás.

-- Tive um pesadelo.

-- Sobre o quê?

Langdon lhe contou.

A Dra. Brooks manteve uma expressão neutra enquanto fazia anotações numa prancheta.

-- Alguma ideia do que possa ter provocado uma visão tão apavorante?

Langdon vasculhou a memória e então balançou a cabeça, que latejou em protesto.

-- Muito bem, Sr. Langdon -- disse ela, sem parar de escrever --, agora vou fazer alguma perguntas de rotina. Que dia da semana é hoje?

Langdon pensou por alguns instantes.

-- Sábado. Eu me lembro de estar andando pelo campus hoje mais cedo... de participar de um simpósio à tarde e depois... acho que essa é a última coisa de que me lembro. Eu levei um tombo?

-- Já vamos falar sobre isso. O senhor sabe onde está?

Langdon deu seu melhor palpite:

-- No Hospital Geral de Massachusetts?

A Dra. Brooks fez outra anotação.

-- Existe alguém para quem devamos telefonar avisando? Mulher? Filhos?

-- Ninguém -- respondeu Langdon sem precisar pensar.

Sempre gostara da solidão e da independência que sua vida de solteiro lhe oferecia, embora precisasse admitir que, nas condições em que se encontrava, preferiria ter um rosto conhecido ao seu lado.

-- Eu poderia telefonar para alguns colegas, mas não vejo necessidade.

Quando a Dra. Brooks terminou de medir o pulso de Langdon, o médico mais velho se aproximou. Alisando as sobrancelhas revoltas, sacou um pequeno gravador do bolso e o mostrou à colega. Ela assentiu, indicando que entendera, e voltou a encarar o paciente.

-- Sr. Langdon, quando chegou hoje mais cedo, o senhor estava murmurando repetidamente uma coisa.

Ela lançou um olhar ao dr. Marconi, que ergueu o gravador digital e apertou um botão.

Uma gravação começou a tocar e Langdon ouviu a própria voz grogue balbuciar repetidas vezes a mesma frase: "Ve... sorry. Ve... sorry."

-- Me parece -- continuou a doutora -- que o senhor estava dizendo "Very sorry. Very sorry".

Langdon concordou, embora não se lembrasse de nada daquilo.

A Dra. Brooks o fitou com um olhar tão intenso que chegava a ser perturbador.

-- Tem alguma ideia de por que diria isso? O que o senhor lamenta tanto?

Enquanto se esforçava para tentar lembrar, Langdon tornou a ver a mulher de rosto velado parada à margem de um rio vermelho-sangue, cercada de corpos. Sentiu outra vez o fedor da morte.

Foi invadido pela sensação repentina, instintiva, de que estava correndo perigo... não só ele como todos os demais. Os bipes do monitor cardíaco aceleraram na mesma hora. Seus músculos se retesaram e ele tentou se sentar.

A dra. Brooks se apressou em pousar a mão com firmeza sobre seu peito, forçando-o a se deitar novamente. Então lançou um olhar rápido para o médico barbudo, que foi até um dos cantos do quarto e começou a preparar alguma coisa.

Em pé ao lado de Langdon, a doutora voltou a falar com um sussurro:

-- Sr. Langdon, ansiedade é uma reacção comum a traumatismos cranianos, mas o senhor precisa manter sua pulsação baixa. Não deve se mexer nem se agitar, apenas fique deitado e descanse. Vai ficar tudo bem. Aos poucos, vai recuperar a memória.

O outro médico voltou com uma seringa, que entregou à Dra. Brooks. Ela injectou o conteúdo no acesso intravenoso de Langdon.

-- É só um sedativo leve para acalmá-lo -- explicou -- e para aliviar a dor. -- Ela se levantou para ir embora. -- Vai ficar tudo bem, Sr. Langdon. Agora durma. Se precisar de alguma coisa, aperte o botão ao lado da cama.

Ela apagou a luz e se retirou junto com o médico barbudo.

No escuro, Langdon sentiu o efeito quase imediato da medicação em seu organismo, arrastando-o de volta para as profundezas do poço do qual havia emergido. Combateu a sensação, forçando os olhos a permanecerem abertos na escuridão do quarto. Tentou se sentar, mas seu corpo parecia feito de concreto.

Ao mudar de posição na cama, Langdon se viu outra vez de frente para a janela. As luzes estavam apagadas e, no vidro escuro, seu próprio reflexo havia desaparecido, substituído por um horizonte distante e iluminado.

Em meio às silhuetas de torres e domos, uma fachada em especial se destacava em seu campo de visão. A construção era uma imponente fortaleza de pedra, com ameias no parapeito e uma torre de mais de 90 metros, que ficava mais larga perto do topo projectado para fora, também com ameias munidas de balestreiros.

Langdon se sentou na cama com as costas erectas, fazendo a dor na cabeça explodir. Lutou contra o latejar violento e fixou o olhar na torre.

Conhecia bem aquela estrutura medieval.

Era única no mundo.

Infelizmente, porém, ficava a quase 6.500 quilómetros de Massachusetts.

Do lado de fora, escondida nas sombras da Via Torregalli, uma mulher robusta desmontou sem o menor esforço de uma moto BMW e avançou com o andar decidido de uma pantera que persegue sua presa. Tinha um olhar feroz. Os cabelos curtos e espetados se destacavam contra a gola levantada de uma jaqueta de couro preta. Ela verificou a arma equipada com silenciador que trazia nas mãos e ergueu os olhos para a janela do quarto de Robert Langdon, onde a luz acabara de se apagar.

Mais cedo naquela mesma noite, sua missão original dera terrivelmente errado.

O arrulho de uma simples pomba havia mudado tudo.

Agora ela estava lá para consertar o estrago. (…)”



Aguardemos ansiosamente a chegada do livro às livrarias.




Ordo ar chao

quarta-feira, abril 10, 2013

Isto é um assalto


A banca e a troika. A escalada dos impostos, os cortes salariais e o aumento do desemprego. Quem paga a factura? As respostas chegam em banda desenhada, no livro Isto é um assalto, da autoria dos dirigentes do BE e economistas, Francisco Louçã e Mariana Mortágua, lançado nesta quarta-feira em Lisboa.
”Este livro descreve o assalto que Portugal está a sofrer. Eles estão a cobrar impostos acima das nossas possibilidades, a retirar subsídios de férias e de Natal que eram as nossas possibilidades, a destruir o Serviço Nacional de Saúde, a escola pública e a Segurança Social, que deveriam ser a devolução dos nossos tributos. Eles querem tudo”, resume-se na contra capa do livro escrito a duas mãos e com ilustrações de Nuno Saraiva.
A “história deste assalto moderno” é contada ao longo de quase 170 páginas. Fazem-se contas e cobra-se a factura à banca e à austeridade, à "chantagem da dívida" e ao flagelo do desemprego. No final, os dois economistas deixam um desafio: “Isto é um assalto! Vamos fazer-lhes frente?”
O lançamento da banda desenhada está marcado para esta quarta-feira, às 148h30, na livraria Bertrand (Picoas), em Lisboa.

sexta-feira, março 29, 2013

A Instalação do Medo, de Rui Zink



Dois homens batem à porta. «Bom dia, minha senhora, viemos para instalar o medo. E, vai ver, é uma categoria».


“A história começa com a chegada de um par de técnicos que batem à porta de uma mulher anunciando que vêm instalar o medo na sua casa. Ao longo da instalação, vamos percorrendo o catálogo dos medos humanos, que não é pequeno. O capítulo em que se procede à demonstração do medo tem como epígrafe a imorredoira frase do sábio António Borges, e cito: «Diminuir salários não é uma política, é uma urgência».
O medo foi, desde sempre, o assessor principal da Política. Mas agora que o tempo não está para luxos, fez um golpe de Estado e tomou-lhe o lugar.
É muito mais fácil governar países através do medo do que através da negociação política – e a Europa começa agora a entender o encanto e as potencialidades deste método que tanto sucesso económico garantiu à China.
O medo torna as pessoas muito mais produtivas do que a pura ambição. Por isso, os neo-liberais entraram em metamorfose acelerada para se tornarem mais dirigistas do que o camarada Hu Jintao, e arranjaram na troika um comité central pós-moderno, que, como os comités centrais dos tempos soviéticos, significa emprego e segurança para o resto da vida, quer o povo coma raspas ou brioches.
O velho sonho de construir um mundo melhor para todos foi substituído pelo ainda mais velho discurso da pobreza honrada.
O problema é que é complicado ouvir serenamente um gestor multimilionário pregar a necessidade da pobreza alheia – e a antiga classe média que luta agora pela pura sobrevivência, revolta-se.
Os jovens turcos da Coisa Financeira ( que se tornou a única Coisa) não contavam com a revolta: os países magníficos como a China ou a União Soviética nunca tiveram classe média; os que nunca tiveram nada convencem-se calmamente a ter pouco e calar.
«O medo, pouco a pouco, torna-se virtualmente a única realidade», escreve Zink, na sua ficção mais verdadeira do que o pão de cada dia.
O medo varre todas as espécies de amor e garante a subsistência de uma única lealdade: a devida ao chefe. O estreitamento da oportunidade de ter um chefe, um trabalho – qualquer que seja – e um salário, exponencia o grau da subserviência.
Sempre que abre uma vaga, as pessoas esgadanham-se para a conseguir, utilizando todos os métodos de pressão e influência. É esta a paisagem.
O medo devora sentimentos, dignidade, consciência – tudo o que representa a diferença e a excelência da humanidade.
Os instaladores do medo pasmam de o ver tão eficaz. Também eles têm medo: medo que a estratégia do medo tome um dia conta dele, e se vejam no lugar dos pobres que hoje cozem no forno do barro do terror de amanhã.
Amanhã, não se esqueçam, estaremos todos mortos. A espécie humana é a única que o sabe – mas até a ideia da morte o medo parece ter comido. “ por Inês Pedrosa

«Recorrendo a frases curtas, à meta-linguagem […] e despido da ironia que o acompanha quase sempre, o escritor constrói uma narrativa que é uma forte crítica ao modelo civilizacional assente nos mercados. Os mercados são aqui o papão que tudo comanda e assusta […] Seco, cru, o livro arrisca na fórmula e é eficaz no efeito. No mesmo fôlego da escrita, o leitor entra na espiral construída por Rui Zink, sente o incómodo, sente-se vítima.» por Isabel Lucas, Público

Ao longo da história são conhecidos os vários momentos em que oriundas, ora de Inglaterra, ora da Alemanha, fomos invadidos por más notícias. Mas que me lembre nunca tivemos dessas más invasões em simultâneo.

(…). Tive, ao ler A Instalação do Medo, a mesma emoção feita de espanto causada pela leitura de O Processo, de Kafka. (…) Mais do que este medo que se anuncia porta a porta e se instala, de modo viral, incontornável, a descrição de situações com que deparamos dia a dia em destaque na net, nos jornais, na rua, -por todo o lado: a da indiferença perante o outro, despido da sua humanidade, como os judeus o foram outrora, de modo sistemático como nunca se vira até ao tremendo momento da “solução final. (…)
Este medo descrito, de diversas maneiras, é próximo parente dessa ideia de alguma solução final, agora modernizada e mais adequada ao que se julga ser de imediato mais útil: empobrecer, em vez de matar logo. Pois a promoção da pobreza, física, mental, moral – matará tanto ou mais do que as câmaras que consumiram os corpos mas acabaram por elevar as almas: hoje a consciência do Holocausto é mais viva e o apelo a que nunca mais se repita fala alto.
O medo fala baixinho, por isso se tornou em arma melhor escolhida, mais fácil de espalhar e mais actuante: medo e silêncio coabitam nas almas enfraquecidas (…) Nesta obra, Rui Zink deixa um grande fresco da nossa sociedade portuguesa e não só, pelo nosso exemplo passa a nova realidade que no mundo se enfrenta: e escusado será dizer, é uma realidade que ele, pela ironia crua nos convoca a combater”.

terça-feira, novembro 13, 2012

Citações de José Saramago


"A vida é uma aprendizagem diária. 
Afasto-me do caos e sigo um simples pensamento: Quanto mais simples, melhor !"

José Saramago

segunda-feira, outubro 08, 2012

A Firmeza de Ana Maria Pinto



Firmeza
Sem frases de desânimo,
Nem complicações de alma,
Que o teu corpo agora fale,
Presente e seguro do que vale.
Pedra em que a vida se alicerça,
Argamassa e nervo,
Pega-lhe como um senhor
E nunca como um servo.
Não seja o travor das lágrimas
Capaz de embargar-te a voz;
Que a boca a sorrir não mate
Nos lábios o brado de combate.
Olha que a vida nos acena
Para além da luta.
Canta os sonhos com que esperas,
Que o espelho da vida nos escuta. 

Fernando Lopes Graça





A cantora lírica Ana Maria Pinto que regressou em abril a Portugal, depois de sete anos a estudar e a viver em Berlim, protagonizou um dos incidentes da cerimónia da manhã de comemoração da implantação da República – 5 de Outubro de 2012, ao cantar “Firmeza”, de Fernando Lopes Graça, depois do Presidente da República ter terminado o seu discurso.

Ana Maria Pinto explicou aos jornalistas que foi uma forma de mostrar a sua discordância em relação ao rumo do país. Para ela cantar aquele tema correspondia a um "dever cívico" de resistir. "Estou a cantar em protesto por mim, pelos meus pais (...)". A cantora lírica já tinha cantado “Acordai”, do mesmo autor, à porta do Palácio de Belém no protesto que decorreu no dia do último Conselho de Estado.



Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...