sábado, outubro 30, 2010

Dilúvio em Lisboa

Isto parece Veneza, impressionante…

Contudo são imagens da capital de Portugal, Lisboa, ontem dia 29.10.2010, após o dilúvio de água.

Lojas alagadas na Baixa da capital, ruas fechadas pela força da água e uma manhã de trânsito infernal no Centro e Norte do País. Em meia hora caíram 34 litros de água por metro quadrado. Quase tanto como na Madeira.


Segundo o DN: “As mãos até ficaram negras de empurrar a porta com tanta força para conter a entrada da água. Mas o instinto e a ânsia de Filomena Cardoso para salvar a papelaria sucumbiram à força da enxurrada que varreu a Rua da Fé e entrou pela Rua de S. José, levando tudo à frente e deixando um rasto de destruição. Com água pela cintura, ainda tentou deitar mão a DVD, revistas e ao computador. Mas não foi capaz. A prioridade era pôr-se a salvo. Fugir.

"Medo? Medo é uma pessoa lutar a vida inteira por uma coisa, que depois se vai num instante", desabafa a dona do estabelecimento comercial na Baixa de Lisboa. Com a voz embargada e dificuldade em articular o discurso, anda de um lado para o outro, sem saber por onde começar a limpeza. Agora que a água já se esvaiu pelas sarjetas, o cenário de destruição é bem visível: as revistas são uma amálgama de pasta de papel espalhada no chão, a terra deixou marcas na parede com meio metro de altura e a arca frigorífica que andou a navegar pela loja ficou encostada à parede.

Foi aqui, na Baixa lisboeta, que os estragos do mau tempo que ontem se abateu sobre o País foram maiores. Na cidade, entre as 10 e as 11.00 da manhã, caíram 39 litros de água por metro quadrado, número não muito distante dos 50 litros que caíram na Madeira em Março, também só numa hora. Mas se a contabilização da precipitação se cingir aos 30 minutos entre as 10.30 e as 11.00, é ainda mais impressionante: 34 litros. Na capital, a queda de chuva por hora não chegou para bater recordes. Segundo o Instituto de Meteorologia, é preciso recuar a 1997 para encontrar registos de tanta água num tão curto período.

A chuva trouxe o caos às principais artérias, gerou dezenas de inundações e um trânsito infernal. A Avenida Marginal e outras estradas foram cortadas, a zona ribeirinha de Santa Apolónia à Avenida 24 de Julho alagou, e a água entrou nas lojas da Baixa, Rossio e Praça da Figueira, começando a correr no Marquês de Pombal para varrer a Avenida da Liberdade e as ruas paralelas. No Rossio, o metro parou quando a água entrou na zona comercial. Sacavém e Loures também tiveram cheias."


“Os distritos de Lisboa e de Setúbal foram os mais atingidos. Mas a nível nacional houve 506 inundações, 96 quedas de árvores, 11 desabamentos, 20 quedas de estruturas e 85 limpezas de via.

Na papelaria de Filomena, na Baixa, ainda não é possível contabilizar os prejuízos mas, em princípio, serão cobertos pelo seguro. É isso que espera Raul Cardoso, o marido, que se atarefa a trazer para a porta o material que não se pode aproveitar, desde caixas de pastilhas, a DVD, revistas e jornais. É até com indiferença e desolação que Raul recebe o comentário de alguém que se abeira da porta para lhe deixar uma palavra amiga: "lamento, vizinho..."

Filomena parece ainda estar em estado de choque com o que acabou de viver. Um choque que tem também um quê de indignação. "Irrita-me ouvir na televisão um alerta laranja e já se saberem quais as zonas problemáticas. E depois não vem cá ninguém", afirma, revoltada com as muitas chamadas para o 112 e para os bombeiros que ficaram sem resposta.

Na rua, funcionários da autarquia recolhem os pedaços de alcatrão que saltaram da estrada e deixaram a calçada à vista. Mas o que se vê, agora que a chuva já dá tréguas, não faz adivinhar o que se viveu uma hora antes, garante Vasco Morgado Júnior, presidente da Junta de Freguesia de S. José, enquanto pega no iPhone para mostrar imagens onde os carros estacionados na berma boiam ao sabor de um autêntico rio. "Parece que estamos em Bagdad", desabafa, entre palavras de alento dirigidas aos comerciantes locais.

"Infelizmente, isto é cíclico. Cada vez que chove com mais força fica tudo impraticável. Embora, em tantos anos, nunca tenha visto uma situação assim", afirma este homem que o bairro viu nascer. A explicação para os estragos está no colector da rua, diz, que está velho, estragado e não cumpre a sua missão. "É natural que, com a impermeabilização do solo na parte de cima da cidade, a água tenha de escorrer para algum lado. E com estas ruas inclinadas, vem por aí abaixo", diz, apontando para a Rua da Fé, que trouxe a enxurrada por ali fora. "As obras no colector já estão prometidas pela Câmara Municipal de Lisboa, mas tardam em chegar", lamenta."


"Manuel Ferreira, um dos donos do Cantinho de S. José, também não estranha que a água lhe tenha entrado pelo restaurante adentro. "Andam a prometer a obra no colector sei lá há quanto tempo. No ano passado, até mandaram retirar os carros porque ia começar. Até hoje", diz, já com a casa limpa e aberta ao público para o almoço.

Da autarquia, chegam novas promessas. O concurso lançado em 2009 foi anulado, repetido, pelo que as obras estarão em condições de avançar dentro de dois meses, explicou ao DN fonte oficial da câmara. Contudo, "com uma chuva destas, a água atinge uma velocidade tão grande que não tem sequer tempo de entrar no colector. Há pouco a fazer. A rua acaba por funcionar como o próprio colector", acrescenta.

"Com condições destas como é que querem comércio na Baixa da cidade?", questiona o autarca da Freguesia de S. José. O presidente da Junta de Freguesia de S. Nicolau, ali ao lado, também atribui os estragos ao "problema estrutural do saneamento" que deve ser resolvido com urgência. "É um problema que sempre existiu na Baixa e é importante que se resolva, porque a situação tem ocorrido com alguma frequência", afirmou António Manuel, adiantando que as ruas da Prata, Augusta e dos Correeiros foram das mais afectadas.

O autarca diz que muitos comerciantes minimizaram os estragos com os próprios meios e referiu que há mesmo "uma certa resignação" face ao problema.

A Associação de Dinamização da Baixa Pombalina considera que o centro histórico da capital está cansado deste tipo de situação, apesar de nem sempre as chuvas serem assim, tão intensas. Para o presidente, Manuel Lopes, as obras que têm sido feitas "nem sempre têm resolvido" os problemas, causadores de prejuízos incalculáveis. O responsável considera necessário chamar a atenção para o que pode e deve ser feito: "Estas intempéries estão a ocorrer com mais frequência e era necessário que as autoridades começassem a perceber que é preciso tomadas de posição drásticas."


“Poucos metros abaixo, ainda na Rua de S. José, Lil, a dona do Restaurante Himalaia aguarda a ajuda dos bombeiros para retirar a água que chega quase ao tampo das mesas. De chinelos e sugando um cigarro de forma frenética, a nepalesa que está há 11 anos em Portugal nem consegue antever o futuro. "Não sei como vai ser, ainda mais agora estou cá sozinha", lamenta, enquanto dois rapazes novos com as mesmas feições asiáticas retiram com baldes a água que deixou a mobília a boiar.

À porta do cabeleireiro onde trabalha Isabel Oliveira, um reboque retira da via os carros que foram virados ao contrário pela violência da chuva. O Rover cheio de água por dentro e folhas coladas ao radiador é de uma amiga, que assiste incrédula ao que ficou registado no seu telemóvel, quando a rua se transformou num rio com quase um metro de altura. "Isabel, e tu não me ligas ao ver uma coisa destas?!", pergunta Sofia, de boca aberta a olhar o ecrã. "Os carros estacionados andavam sozinhos. Só pensava que iam entrar na montra. Cá dentro, desligámos tudo, pusemos o que podíamos para cima e ficámos a assistir ao espectáculo", diz a cabeleireira, mais calma, agora que o temporal se foi e a clientela está de volta.

Na Rua das Portas de Santo Antão, o restaurante Gambrinus e a perfumaria Beauty Stores foram os mais atingidos e onde se viveram momentos de maior pânico.

No Rossio, a praça ficou completamente alagada, com a água a entrar no Teatro D. Maria e a gerar confusão na sapataria Seaside. "Foi muito de repente. Os clientes entraram em pânico, alguns até saíram pela porta de emergência", conta Paulo Mouzinho, gerente da loja, que andou a levantar tampas de esgoto entupidas para acelerar o escoamento da água na rua. Os estragos são incalculáveis, pois o corte de electricidade impede a avaliação do estado da cave, onde a água subiu ao nível dos joelhos.

O vento forte que afectou a zona de Vila Nova de Gaia, no Grande Porto, provocou o desabamento da parede de um prédio em obras em Canidelo. Um homem ficou ferido, e de acordo com os Bombeiros de Coimbrões, foi avaliado no local pelos bombeiros e encaminhado para o hospital.

Na zona centro do País, a chuva e o vento forte provocaram pequenas inundações e estragos em escolas. Em Febres, Cantanhede, as aulas foram mesmo suspensas, quando os bombeiros foram chamados à Escola Básica porque o temporal levantou telhas e partiu vidros. Segundo disse ao DN o vereador da Educação, Pedro Cardoso, os estragos "atingiram o telhado e as janelas da escola, partindo telhas e vidros e derrubando estruturas metálicas". Na Figueira da Foz, a chuva levou o Comando Naval a fechar a barra do porto, impedindo o retomar dos trabalhos de remoção da traineira afundada no rio Mondego.

No distrito de Viseu, não se registaram grandes problemas, apenas pequenas inundações e quedas de árvores. Na cidade, a chuva forte entrou na Escola Emídio Navarro e obrigou algumas turmas a mudar de sala, mas as aulas não foram suspensas.

Mais a norte, em Viana do Castelo, viveu-se uma manhã de caos, já que a chuva intensa cortou várias ruas, provocando filas de vários quilómetros nos acessos ao centro histórico. A situação mais complicada deu-se na marginal, que chegou a ser cortada durante mais de uma hora, dada a "grande acumulação de água" junto à Ponte Eiffel, disse a Protecção Civil. A circulação foi também cortada num viaduto pedonal."

Algo está a mudar…

Consequência das recentes alterações climáticas?

Aquecimento global ou aquecimento solar?

Certo, certo é que nada é como era dantes.

Embora há quem diga que antigamente é que era, que os invernos eram muito mais rigorosos. Vivi em Lisboa durante três anos e não me lembro duma coisa assim, por menos desde que vim para Portugal, desde finais de 1976.

Imagens enviadas por AB

Fonte: DN

2 comentários:

Max disse...

Existem coisas esquisitas, chamadas "planeamento urbano", "intervenções preventivas", "Estudos de impacto ambiental", etc.

Para boa sorte neste País não temos o habito de gastar o nosso tempo com coisas como estas.

astroquack disse...

Meu caro amigo, mas será que ainda não ouviu falar do HAARP?

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