O teclista dos
Doors, Ray Manzarek, um dos membros fundadores do mítico grupo de
rock liderado por Jim Morrison, morreu esta segunda-feira, na
Alemanha, vítima de cancro, segundo comunicado na página no
Facebook da banda.
Manzarek tinha 74
anos. Conhecera Jim Morrison em Venice Beach, na Califórnia, e
acabou por formar com este o grupo que ficou famoso por temas como
"Riders on the Storm", de 1971.
O som do seu órgão
era um dos mais reconhecíveis da música rock.
A imagem do seu
tronco curvado sobre as teclas, uma das mãos desenhando linhas de
baixo, a outra divagando pelo órgão, ficarão para sempre
associadas a uma banda, os Doors, e a um tempo, os anos 1960. Ray
Manzarek foi um dos instrumentistas que melhor os representou e foi,
até ao fim da vida, nesta segunda-feira, totalmente um filho das
ambições estéticas e dos sonhos de reinvenção e despertar
espiritual desse tempo.
Um romantismo
perfeitamente ilustrado no início de tudo. Manzarek encontrou Jim
Morrison, colega da mesma faculdade de Los Angeles, na praia de
Venice. Morrison mostrou-lhes algumas letras que escrevera.
"Moonlight drive": "Let's swim to the moon / Let's
climb to the tide". Os Doors nasciam ali, naquela tarde.
Nascido em Chicago,
amante do blues e do jazz, fundaria os Doors
com Jim Morrison em 1965. Dois anos depois, com a edição do
homónimo álbum de estreia, a banda tornar-se-ia um dos fenómenos
da década, atingindo o coração do circuito pop com as
letras provocadoras e enigmáticas de Morrison e música que
reproduzia na perfeição aquilo que Manzarek definia como uma
entrega "dionisíaca" à vida, constantemente no fio da
navalha.
Se Morrison era
todo ele excesso e descontrolo, Manzarek era o músico metódico que,
apoiado pelo guitarrista Robbie Krieger e pelo baterista John
Densmore, traduzia em som essa tentação pelo abismo, aproximando a
música do precipício, mas impedindo-a de entrar em queda livre.
Até 1971, data da
morte de Jim Morrison e da edição de LA
Woman, o último
álbum do vocalista com os Doors, Ray Manzarek firmou com a banda o
seu legado na história da música popular urbana. Álbuns como
Strange Days
ou Morrison Hotel
e canções como Light
my fire, The
end, When
the music's over
ou Riders on the
storm têm a
marca do seu talento que, segundo o próprio, residia mais na
liberdade da imaginação que na força do virtuosismo. "Sou
basicamente uma espécie de pianista de 'cocktail
jazz'. Serei o
primeiro a admitir que não sou um teclista muito bom", terá
afirmado um dia.
Nascido
verdadeiramente para a música com os Doors, nunca se libertaria
verdadeiramente da sombra da banda (nem, na verdade, parecia
desejá-lo). A carreira a solo foi discreta e os Doors,
quer nos livros de memórias, quer nas digressões revivalistas, um
porto seguro a que regressou sempre. Isso não o impediu, no entanto,
de lançar alguns álbuns a solo, com o grupo Nite City, ou de
concretizar algumas colaborações com Iggy Pop, Echo & The
Bunnymen, X ou Philip Glass.
Robbie Krieger, que
o acompanhou nos últimos anos, declarou em comunicado: "Sinto-me
feliz por ter podido tocar as canções dos Doors com ele durante a
última década. Ray foi uma grande parte da minha vida e irei sentir
a sua falta para sempre".
Com Robby Krieger e
o cantor Ian Astbury (The Cult), viria a reformar os Doors em 2002,
passando por Portugal três vezes: em dois concertos no Pavilhão
Atlântico, em Lisboa, no Coliseu dos Recreios e no festival Marés
Vivas, em Vila Nova de Gaia.
"Fiquei
profundamente triste ao saber da morte do meu amigo e companheiro de
banda, hoje. Fico feliz por ter podido tocar canções dos Doors com
ele, durante a última década. O Ray foi uma grande parte da minha
vida e hei de ter sempre saudades dele", escreveu Robby Krieger.
Recentemente, John Densmore, que se opôs à reunião dos
Doors, escreveu um livro sobre a batalha judicial que daí decorreu,
admitindo que não se importaria de voltar a tocar com Krieger e
Manzarek, desde que o fizesse por solidariedade e não para ganhar
dinheiro.
Manzarek deixa a
mulher, os dois irmãos, o filho Pablo e três netos.
Sem frases de desânimo,
Nem complicações de alma,
Que o teu corpo agora fale,
Presente e seguro do que vale.
Pedra em que a vida se alicerça,
Argamassa e nervo,
Pega-lhe como um senhor
E nunca como um servo.
Não seja o travor das lágrimas
Capaz de embargar-te a voz;
Que a boca a sorrir não mate
Nos lábios o brado de combate.
Olha que a vida nos acena
Para além da luta.
Canta os sonhos com que esperas,
Que o espelho da vida nos escuta.
Fernando Lopes Graça
A cantora lírica Ana Maria Pinto
que regressou em abril a Portugal, depois
de sete anos a estudar e a viver em Berlim, protagonizou um dos incidentes da cerimónia da manhã de comemoração da
implantação da República – 5 de Outubro de 2012, ao cantar “Firmeza”, de
Fernando Lopes Graça, depois do Presidente da República ter terminado o seu
discurso.
Ana Maria Pinto explicou aos jornalistas que foi uma
forma de mostrar a sua discordância em relação ao rumo do país. Para ela cantar
aquele tema correspondia a um "dever cívico" de resistir. "Estou
a cantar em protesto por mim, pelos meus pais (...)". A cantora
lírica já tinha cantado “Acordai”, do mesmo autor, à porta do Palácio de Belém
no protesto que decorreu no dia do último Conselho de Estado.
"Acordai",
"canção heróica" de José Gomes Ferreira e Fernando
Lopes-Graça, foi cantada, ontem sexta-feira, junto ao palácio
presidencial de Belém, em Lisboa, ontem teve lugar o Conselho do
Povo iniciativa popular que decorreu paralelamente à reunião dos
Conselheiros de Estado com o Presidente da República.
De acordo com a soprano, a cantora lírica Ana Maria Pinto, a
escolha de uma das “Canções Heróicas”, de Lopes-Graça, “é
um apelo à consciência de todos”, tendo Ana Maria Pinto
qualificado a canção como “apropriada ao momento que
atravessamos, ao afirmar ‘acendam almas e sóis neste mar sem
cais!’”.
A iniciativa, promovida pelas cantoras líricas Ana Maria Pinto e
Mónica Monteiro e pela professora de música Sofia Cosme, reuniu já
cerca de meio milhar de adesões na rede social Facebook,
nomeadamente membros de grupos corais.
“Será um momento humanista, especial e belo, com o melhor que a
nossa cultura tem para oferecer”, disse Ana Maria Pinto.
A concentração principiou 17:30, junto à fonte luminosa, na
Praça do Império, seguindo até à praça Afonso de Albuquerque, em
frente ao palácio presidencial, onde, às 18:00, interpretaram
“Acordai”, com grande sucesso, junto de milhares de pessoas que
engrossavam o Conselho Popular.
“A cultura é um veículo importantíssimo para consciencializar
e sensibilizar as pessoas, nomeadamente em momentos como o actual, em
que é urgente falar à alma muito mais que à matéria”,
sentenciou.
Integrando-se no contexto dos protestos contra a política de
austeridade e a intervenção da troika, Ana Maria Pinto afirmou:
“Estou do lado dos mais fragilizados; eu sou uma fragilizada”.
“Sinto, tal como escreveu Gomes Ferreira, que Portugal é um
país à deriva sem faróis”, disse.
A cantora lírica afirmou estar contra “esta política
neoliberal de privatizações que delapida o património que os
nossos pais construíram e que não serve o povo, mas os interesses
das empresas que seguem princípios imorais”.
Ana Maria Pinto é “contra as privatizações dos serviços de
água, electricidade, da RTP, e de outros”.
Referindo-se à sua área de trabalho, a cantora afirmou que,
depois de ter estudado em Berlim, onde viveu sete anos, decidiu vir
para Portugal, onde “são cada vez menores as possibilidades de
exercer a profissão”.
A soprano criticou também “o regime de recibos verdes a que
estão condenados todos os músicos portugueses se querem trabalhar”.
“Sou uma cidadã e quero participar activamente na democracia do
meu país e daí esta urgência de chamar as pessoas à consciência”,
rematou Ana Maria Pinto.
O Tribunal de Moscovo considerou as três jovens do
grupo punk russo culpadas, avança a Reuters. Nadejda, Ekaterina e Maria foram
acusadas de crimes de vandalismo e incitação ao ódio religioso depois de
participarem numa manifestação contra Putin dentro de uma igreja ortodoxa.
Pussy Riot
Vs Rússia
"As cantoras
do grupo punk conspiraram com o propósito de violar a paz pública
ofensivamente, num sinal de desrespeito flagrante para com os cidadãos",
declarou o tribunal, segundo a agência de notícias Interfax, acrescentando que
“as mulheres foram motivadas pela inimizade religiosa e pelo ódio, agindo de
maneira provocante e insultuosa dentro de um edifício religioso e na presença
de um grande número de crentes ", disse o tribunal.
Durante a leitura
da sentença, a juíza Marina Syrova repetiu em parte os argumentos da acusação,
que pede três anos de prisão para as jovens pelos crimes de “vandalismo” e
“incitação ao ódio religioso”.
A juíza sublinhou
que as acusadas não manifestaram arrependimento e que “violaram a ordem
pública” e “ofenderam os sentimentos [religiosos] dos crentes”.
Os advogados de
defesa pediram a absolvição das três jovens. A pena máxima por “vandalismo” é
de sete anos de prisão.
À porta do
tribunal vários apoiantes das Pussy Riot gritam palavras como
"vergonha" e "escumalha Putin", protestando contra o
veredicto.
O protesto
Com as caras
cobertas por balaclavas, máscaras que tapam todo o rosto excepto olhos e boca,
as jovens entraram, a 21 de Fevereiro, numa catedral ortodoxa de Moscovo e
cantaram uma canção de protesto contra o Presidente russo Vladimir Putin.
Nadejda
Tolokonnikova, de 22 anos, Ekaterina Samoutsevitch, de 29, e Maria Alekhina, de
24 foram detidas em Março e estiveram desde então sob custódia policial.
O julgamento
começou a 30 de Julho e, enquanto a acusação pedia uma condenação de três anos
de cadeia, a defesa queixou-se de ter o trabalho dificultado, pela
impossibilidade de chamar testemunhas ou por ver as suas perguntas
permanentemente rejeitadas pela juíza.
A presidente do
tribunal Khamovnitcheski de Moscovo, Marina Syrova, responsável pelo julgamento
dos três elementos do grupo ‘punk’ feminino Pussy Riot, foi colocada sobre protecção
estatal na véspera da leitura da sentença devido a ameaças feitas por apoiantes
da banda, indicou ontem uma porta-voz da instância judicial.
Figuras de peso defendem as Pussy Riot
O caso das Pussy
Riot está a provocar várias divisões na sociedade russa, além de ter alcançado
um grande mediatismo internacional. Madonna, Peaches, Sting, Red Hot Chilli
Peppers, Yoko Ono e Paul McCartney são algumas das personalidades que já se
manifestaram em defesa das jovens.
A Amnistia
Internacional entregou ontem uma petição em favor do grupo punk com cerca de 10
mil assinaturas, segundo a organização, a um guarda através do gradeamento da
embaixada russa em Londres, que estava encerrada.
Do universo
político, as mensagens de apoio chegaram de 120 deputados do Parlamento alemão
e do ministro checo dos Negócios Estrangeiros.
Face ao mediatismo
que este caso angariou, até o Presidente russo Vladimir Putin se manifestou,
pedindo “clemência” no julgamento das jovens.
O marido de Nadezhda
Tolokonnikova, uma das três músicas da banda Pussy Riot que foram condenadas
nesta sexta-feira a dois anos de prisão por vandalismo motivado por ódio
religioso, reagiu à sentença com um apelo ao derrube do regime. "A única
coisa que pode salvar a minha mulher e a minha fílha é uma revolução. Vamos
fazê-la", terá dito, segundo a edição online do 'Wall Street Journal'.
“As Pussy
Riot são - e tomando momentaneamente de empréstimo um dos lemas dos Clash - a
única banda que realmente interessa. Quase não importa o que diz o tribunal. As
três mulheres das Pussy Riot - um explosivo e irritante cruzamento entre um
grupo musical e um anónimo movimento de dissidentes russos - já conseguiram, de
uma maneira muito significativa, vencer a farsa de julgamento a que estão a ser
sujeitas em Moscovo (e cuja sentença foi conhecida hoje dia 17). Cada dia do
seu julgamento por "vandalismo motivado por ódio religioso" chamou a
atenção da comunidade internacional para a repressão paranóica na Rússia de
Vladimir Putin.
As Pussy Riot entalaram Putin nos cornos de um dilema:
ou o seu Governo condena a banda e aumenta ainda mais o seu estatuto de
mártires, ou recua e reconhece que acusar o trio mascarado devido a um
cacofónico protesto musical na Catedral de Cristo Salvador que chamou a atenção
da aliança da Igreja russa com o regime de Putin terá sido sempre um erro. Três
dos cinco membros da banda enfrentam agora a possibilidade de passar sete anos
na prisão, o que está a causar um inesperado repúdio internacional. Na semana
passada, antes de um encontro com o primeiro-ministro britânico David Cameron,
Putin terá admitido que preferia recuar.
Isto é algo que não era suposto acontecer. Para
começar, os dissidentes não se dão bem na Rússia "putinista"; depois,
o punk rock - o filho ilegítimo, mais sujo, mais esperto e mais irritante do
rock"n"roll - normalmente não vence. O movimento punk tem um longo
historial de aspirações a rebentar com governos corruptos e autoritários,
multinacionais e outras estruturas de poder internacional. Mas não tem um longo
historial de sucessos.
Assim, o punk rock decidiu-se por objectivos políticos mais atingíveis, menos
globais: normalmente, protestos localizados e atrair atenções e despertar
consciências. As Pussy Riot, que ainda há poucos meses eram um grupo obscuro,
são agora um fenómeno internacional: as três detidas foram consideradas
prisioneiras de consciência pela Amnistia Internacional e a banda tornou-se o
ai-jesus dos intelectuais russos, que há tanto tempo sofrem e que agora se
juntaram em defesa das três artistas. E se bem que ninguém fale do grupo pela
sua música, uma olhadela para a história dos anteriores sucessos geopolíticos
do punk rock mostra que as Pussy Riot já os ultrapassaram - e talvez tenham
dado ao punk rock um futuro como uma força global para a justiça e a liberdade.
Não demorou muito até o que o punk se afastasse do
niilismo sem futuro dos Sex Pistols, o lendário grupo inglês da segunda metade
dos anos 70 que basicamente iniciou o punk rock. Os Clash rapidamente viraram a
atenção do punk para lutas globais. Joe Strummer, uma das forças criativas dos
Clash, colocou o punk rock a cantar acerca da Guerra Civil de Espanha, as
classes exploradas da Jamaica, o martírio do poeta de esquerda chileno Victor
Jara, e mesmo, num disco intitulado Sandinista!, sobre as vítimas do comunismo
soviético e chinês.
Na Irlanda do Norte, os seus contemporâneos Stiff
Little Fingers cantaram o aparecimento de um tipo diferente de revolta - a
banda chamou-lhe uma "força anti-segurança", dado que o grupo se
opunha às milícias locais que apoiavam os britânicos - em Alternative Ulster. O
punk fracturou-se em incontáveis subgéneros obscuros e espalhou-se a nível
mundial, mas um tema comum manteve-se: resistência face ao poder global
arbitrário e brutal, algo que pode ser percebido em todo o lado, desde o punk "crust"
dos britânicos Discharge ao hardcore melódico dos canadianos Propagandhi e ao
folk abrasivo dos Against Me!, da Florida. O punk canalizou a angústia juvenil
para um catecismo antiguerra, antigoverno e anticapitalismo.
Mas essas ambições não alcançaram resultados geopolíticos palpáveis. Talvez o
ponto alto da importância geopolítica do punk tenha vindo de uma banda
britânica que já tinha deixado para trás o seu período mais criativo de finais
da década de 70. Pioneiros de um tipo de punk particularmente agressivo -
reconhecível pela militante e imparável batida da bateria -, os Crass
definiam-se pela anarquia, pelo pacifismo e pelo humor (por vezes de forma
totalmente isenta de humor). Mas foi necessária uma guerra a sério, nas ilhas
Falkland, para que os Crass, então já longe do seu período áureo, se metessem
em acção. Um single, tipicamente cáustico, perguntava à primeira-ministra Margaret
Thatcher, no título, How does it feel (to be the mother of a thousand dead? [Qual é a sensação (de ser a mãe de mil
mortos)?] Contra todas as expectativas, chegou ao primeiro lugar do top
independente, e levou o deputado conservador Tim Eggar a tentar levar os Crass
a tribunal, sob a alçada de uma lei antiobscenidade. Escapando às autoridades,
os Crass engendraram uma partida que prenunciava o sucesso das Pussy Riot. Em
1983, a banda, de forma secreta, cedeu a jornalistas crédulos uma cassete que
supostamente revelava uma conversa entre Thatcher e o Presidente
norte-americano Ronald Reagan. Parecia confirmar a paranóia esquerdista acerca
de ambos os líderes conservadores: discutindo a situação nas Falkland, Reagan
parecia aconselhar moderação a uma Thatcher sedenta de sangue; Thatcher punha
Reagan a divagar sobre sacrificar a Europa numa disputa nuclear com os soviéticos.
A cassete rapidamente se elevou a incidente internacional. O Departamento de
Estado e a CIA afirmaram que era uma manobra de desinformação soviética:
"Este tipo de actividade encaixa-se no padrão de falsificações que o KGB
soviético faz circular, apesar de normalmente envolverem documentos falsos e
não fitas magnéticas", podia-se ler numa declaração oficial do
Departamento de Estado. O jornal inglês Sunday Times publicou um artigo
intitulado Como o KGB enganou a imprensa ocidental. Após terem marcado a sua
posição e os governos terem ficado embaraçados, membros dos Crass admitiram à
agência Associated Press que tinham sido eles, e não os soviéticos, os
arquitectos do embuste.
Quase 30 anos depois, a agitação já foi esquecida. Os
Crass são mais recordados pelos seus dois primeiros álbuns, The Feeding of the
5000 e Stations of the Crass, do que pelas chamadas "cassetes do
Thatchergate". Para pessoas como eu, que continuam a levar a sua música
demasiado a sério, isso infelizmente diz muito acerca da relevância geopolítica
do punk rock.
Desde então, e partindo do princípio que o punk tem objectivos políticos - e
tem havido sempre dentro da cena punk um contingente considerável que discorda
dessa proposição -, eles têm-se manifestado de duas formas: protesto e desafio
local. A lendária cena punk hardcore de Washington nos anos 80 simboliza a
primeira forma. No Verão de 1985, um ano que os punks ao longo dos Estados
Unidos relembram como o "Verão da Revolução" da capital, punks locais
como Guy Picciotto da banda Rites of Spring levaram percussões para a porta da
embaixada da África do Sul para incomodar os representantes do regime do
apartheid. "Pensámos em injectar alguma espontaneidade", recorda
Picciotto, que se sentia insatisfeito com os protestos habituais e repetidos de
então.
Jeff Nelson, co-fundador da seminal editora hardcore
de Washington Dischord Records, encheu paredes da zona no Natal de 1987 com
posters a ridicularizar o procurador-geral Ed Meese. O Ministério da Justiça
declarou que a propaganda pública era "ofensiva", a sua origem
desorientou o jornal Washington Post. Pouco depois, os Fugazi - a banda
seguinte de Picciotto e principal nome da Dischord - dariam concertos no
National Mall, parque entre o Capitólio e o Monumento de Washington, denunciando
a Guerra do Golfo.
A outra opção tem sido a acção localizada - quer para mudar comunidades locais
ou para alterar a forma como as pessoas que são expostas ao punk rock vêem o
mundo. Em cada cidade americana que tem uma cena punk - ou seja, em todas as
cidades americanas - pode-se encontrar os seus membros em parques, normalmente
nos fins-de-semana, a cozinhar comida vegetariana para distribuir grátis a quem
vier, ao que juntam panfletos contra a guerra, num ritual político denominado
Food Not Bombs. Em alternativa, outras bandas têm trabalhado para dessacralizar
o próprio punk, uma subcultura esmagadoramente branca, masculina e
heterossexual. Uma das melhores bandas dos anos 90, Los Crudos, de Chicago, era
composta apenas por elementos de ascendência latina e cantavam exclusivamente
em castelhano, provocando assim a juventude branca e levando-a a questionar o
que é ser um outsider cultural; o seu vocalista, Martin Sorrondeguy, mais tarde
fundou os Limp Wrist, um caso raro: uma banda hardcore assumidamente
homossexual.
Todos estes esforços significam imenso para os milhões
de pessoas cujas vidas têm sido enriquecidas pelo punk, que, no seu melhor,
instila uma ética de responsabilidade pessoal e auto-suficiência que os de fora
podem achar difícil de conciliar com a estética caótica do punk. (Afinal de
contas, quando salas grandes não aceitam que a nossa banda toque, temos nós que
construir uma rede de caves e sofás para a digressão.)
Mas não têm significado muito para os temas
internacionais - reconheçamos, um objectivo quase impossível para algo que
continua a ser um movimento de jovens. Os protestos punk têm-se tornado uma
espécie de fim em si mesmos - Protest and Survive, como cantavam ironicamente
os Discharge -, uma medalha de mérito para ganhar ou um ritual para os punks
protegerem. Nas suas letras, o punk ainda afronta a guerra e as injustiças -
Asesinos, dos Crudos, é sobre o apoio dos Estados Unidos aos ditadores da
América Central, e continua a impressionar -, mas, como acontece com a maioria dos
artistas, o seu impacto geopolítico é marginal. O lema da veterana editora
anarco-punk de Minneapolis Profane Existence é - de forma reveladora e de algum
modo patética - Making Punk a Threat Again (Tornar novamente o punk ameaçador).
As Pussy Riot poderão não inverter esta tendência. O
punk continua a ser essencialmente um fenómeno do mundo ocidental, o que
significa, tal como os Propagandhi diziam, que "reconheço a ironia de que
o sistema a que me oponho me permite o luxo de morder a mão que me dá de
comer". Os punks que na realidade não vivem sob governos autoritários não
enfrentam os mesmos riscos que os membros das Pussy Riot. Se o punk rock se
mobilizou em força contra a Guerra do Iraque em 2003, editando álbuns para
angariar fundos para organizações de activistas e organizando concertos contra
a guerra no National Mall, não atraiu a atenção de George W. Bush, as Pussy
Riot, pelo contrário, claramente atraíram a atenção de Putin.
Mas talvez seja necessário um punk visionário para efectivamente reconhecer o
potencial das Pussy Riot. Na revista de cultura alternativa Dazed &
Confused, Tobi Vail disse sobre a banda russa: "O seu método de protesto
depende do anonimato. Elas criaram um método de protesto cheio de
possibilidades e que pode ser utilizado a nível global, ultrapassando as
fronteiras internacionais. Putin pode encarcerar membros do colectivo, mas como
pode ele impedir a possibilidade de novos membros se juntarem ou impedir que o
movimento se propague para além da Rússia?"
Se há alguém que sabe acerca da criação de um método
de protesto repleto de possibilidades e aplicável para além das fronteiras
internacionais, esse alguém é Vail, uma das figuras mais inspiradoras que o
punk rock já produziu. A banda em que tocava bateria, Bikini Kill, transcendeu
as suas raízes punk para se tornar naquele que pode ser considerado o grupo de
rock feminista mais importante de sempre. O movimento "riot grrrl"
que as Bikini Kill ajudaram a forjar representou uma linha de demarcação para
as mulheres que exigiam representação numa cultura underground exageradamente
masculina, e rapidamente se expandiu a nível global. As cáusticas apresentações
ao vivo das Bikini Kill eram eventos políticos em miniatura. Elas instigaram as
mulheres a que ousassem ser quem elas quisessem ser, e exigiram que os homens
se confrontassem com os seus privilégios, mais do que se congratularem por
serem suficientemente abertos para irem ao espectáculo.De facto, consideremos
aquilo que Vail percebeu. As Pussy Riot actuaram de forma anónima numa igreja
de Moscovo, as caras cobertas com balaclavas coloridas. Podiam ser qualquer
pessoa, e isso poderá ser a inspiração para as próximas Pussy Riot. Por
coincidência, quando o seu julgamento começou, o fanzineMaximumrocknroll, a
publicação mais influente do punk, publicou a sua edição de trigésimo
aniversário.
O único artigo acerca do impacto que o punk continua a
ter a nível internacional debruçava-se sobre as Pussy Riot - um implícito
reconhecimento que aquelas três mulheres não apenas envergonharam Putin e
apontaram para o seu banditismo, mas também redimiram as aspirações de uma
cultura de protesto global.”
Até quando? Não adianta olhar pro céu
Com muita fé e pouca luta
Levanta aí que você tem muito protesto pra fazer
E muita greve, você pode, você deve, pode crer
Não adianta olhar pro chão
Virar a cara pra não ver
Se liga aí que te botaram numa cruz e só porque Jesus
Sofreu não quer dizer que você tenha que sofrer!
Até quando você vai ficar usando rédea?!
Rindo da própria tragédia
Até quando você vai ficar usando rédea?!
Pobre, rico ou classe média
Até quando você vai levar cascudo mudo?
Muda, muda essa postura
Até quando você vai ficando mudo?
muda que o medo é um modo de fazer censura Até quando você vai levando? (Porrada!
Porrada!!)
Até quando vai ficar sem fazer nada?
Até quando você vai levando? (Porrada! Porrada!!)
Até quando vai ser saco de pancada? Você tenta ser feliz, não vê que é deprimente
O seu filho sem escola, seu velho tá sem dente
Cê tenta ser contente e não vê que é revoltante
Você tá sem emprego e a sua filha tá gestante
Você se faz de surdo, não vê que é absurdo
Você que é inocente foi preso em flagrante!
É tudo flagrante! É tudo flagrante!! A polícia
Matou o estudante
Falou que era bandido
Chamou de traficante!
A justiça
Prendeu o pé-rapado
Soltou o deputado
E absolveu os PMs de Vigário! A polícia só existe pra manter você na lei
Lei do silêncio, lei do mais fraco
Ou aceita ser um saco de pancada ou vai pro saco
A programação existe pra manter você na frente
Na frente da TV, que é pra te entreter
Que é pra você não ver que o programado é você!
Acordo, não tenho trabalho, procuro trabalho, quero trabalhar
O cara me pede o diploma, não tenho diploma, não pude estudar
E querem que eu seja educado, que eu ande arrumado, que eu saiba falar
Aquilo que o mundo me pede não é o que o mundo me dá
Consigo um emprego, começa o emprego, me mato de tanto ralar
Acordo bem cedo, não tenho sossego nem tempo pra raciocinar
Não peço arrego, mas onde que eu chego se eu fico no mesmo lugar?
Brinquedo que o filho me pede, não tenho dinheiro pra dar!
Escola! Esmola!
Favela, cadeia!
Sem terra, enterra!
Sem renda, se renda! Não! Não!! Muda que quando a gente muda o mundo muda com
a gente
A gente muda o mundo na mudança da mente
E quando a mente muda a gente anda pra frente
E quando a gente manda ninguém manda na gente!
Na mudança de atitude não há mal que não se mude nem doença sem cura
Na mudança de postura a gente fica mais seguro
Na mudança do presente a gente molda o futuro! Até quando você vai ficar levando porrada,
até quando vai ficar sem fazer nada
É verdade, Cabo Verde e
toda a Lusofonia perderam uma das maiores vozes de sempre.
Cesária Évora
deixou-nos mais tristes este sábado. Morreu com setenta anos no Hospital Baptista
de Sousa, da ilha de São Vicente, onde se encontrava internada desde a passada
sexta-feira. Natural do Mindelo, nasceu no seio de uma família de músicos. Numa das
muitas entrevistas que deu, certa vez, afirmou: "tudo à minha volta era
música". O pai, Justiniano da Cruz, tocava cavaquinho, violão e violino,
instrumentos que se tornaram característicos daquelas ilhas, o irmão, Lela,
saxofone, e entre os amigos contava-se o mais emblemático compositor
cabo-verdiano, B. Leza.
"Cize" como era carinhosamente tratada pelos
amigos, tornou-se no nome mais internacional de Cabo Verde, país de onde o
mundo conhecia já grandes músicos como Luís Moraes e Bana.
Desde cedo que Cesária Évora se lembrava de cantar,
como referiu numa das muitas entrevistas que deu: "Cantava ao ar livre nas
praças da cidade para afastar coisas tristes". Aos 16 anos canta nos bares
das cidade e nos hotéis começando a ganhar uma legião de fãs que a aclamavam já
como
"rainha da morna".
A independência da nação africana, em 1975, coincide
com o início de um "período negro" da cantora que deixa de cantar,
tem problemas com o alcoolismo e trabalha noutra área.
Em 1985 a convite de Bana, proprietário de um
restaurante e uma discoteca com música ao vivo em Lisboa, Cize vem a Lisboa e
grava um disco que passou despercebido à crítica, seguindo para Paris onde é
"descoberta" e daqui, como aconteceu com outros cantores, partiu para
os palcos do mundo.
Em 1988 grava "La diva aux pied nus", álbum
aclamado pela crítica. Nesta fase da sua carreira tem um papel fundamental, que
se manteve até ao final, o empresário francês José da Silva.
Em 1992 Cesária Évora gravou "Miss
Perfumado" e aos 47 anos torna-se uma "estrela" internacional no
mundo da world music, fazendo parcerias com importantes músicos e pisando os
mais prestigiados palcos.
Uma carreira internacional que passou várias vezes por
palcos portugueses cujas salas esgotavam para ouvir, entre outros êxitos,
"Sôdade".
Em 2004 recebeu um Grammy para o Melhor Álbum, de
world music contemporânea pelo disco "Voz d'Amor". "Cize"
não pára e continua em sucessivas digressões, regressando de quando em vez à
sua terra natal.
"Eu preciso de quando vez da minha da terra, do
povo que sou e desde marulhar das ondas", confidenciou certa vez à Lusa.
A cantora começa a enfrentar vários problemas de saúde
e alguns "sustos" como afirmava, mas regressava sempre aos palcos e
aos estúdios com alegria.
Cesária voltou aos estúdios e anunciou não só uma
digressão como a gravação de um novo que deveria sair no próximo ano.
No dia 24 de Setembro numa entrevista ao Le Monde a
cantora afirma que tem de terminar a carreira por conselho médico. A sua
promotora, Tumbao, emite um comunicado confirmando as declarações da "diva
dos pés descalços", e dando conta da tristeza que sentia por ter de o
fazer. Nesse mesmo dia ao princípio da tarde a cantora é internada no hospital
parisiense de Pitie-Salpetriere, por ter sofrido "mais um acidente
vascular cerebral (AVC)". A Tumbao emitiu nesse mesmo dia um comunicado
dando conta que o diagnóstico clínico da mais internacional artista
cabo-verdiana era "reservado".
Ao longo da
carreira, além das inúmeras digressões e actuações em televisões, gravou 24
álbuns, um DVD, "Live in Paris", e registou dezenas de colaborações
em discos.
A cantora cabo-verdiana
será sempre lembrada como a diva que levou a música de Cabo Verde ao Mundo.
Verdadeira força da natureza rude e selvagem das ilhas estéreis e desertas.
Cesária Évora era mais
que a voz da Diáspora, para todos aqueles que gostam de world music e da música
não comercial. Cesária era a voz quente da Terra, era muito mais que a voz das
ilhas do Atlântico.