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terça-feira, maio 21, 2013

Ray Manzarek e as portas da eternidade

 
O teclista dos Doors, Ray Manzarek, um dos membros fundadores do mítico grupo de rock liderado por Jim Morrison, morreu esta segunda-feira, na Alemanha, vítima de cancro, segundo comunicado na página no Facebook da banda.
Manzarek tinha 74 anos. Conhecera Jim Morrison em Venice Beach, na Califórnia, e acabou por formar com este o grupo que ficou famoso por temas como "Riders on the Storm", de 1971.
O som do seu órgão era um dos mais reconhecíveis da música rock.

A imagem do seu tronco curvado sobre as teclas, uma das mãos desenhando linhas de baixo, a outra divagando pelo órgão, ficarão para sempre associadas a uma banda, os Doors, e a um tempo, os anos 1960. Ray Manzarek foi um dos instrumentistas que melhor os representou e foi, até ao fim da vida, nesta segunda-feira, totalmente um filho das ambições estéticas e dos sonhos de reinvenção e despertar espiritual desse tempo.
Um romantismo perfeitamente ilustrado no início de tudo. Manzarek encontrou Jim Morrison, colega da mesma faculdade de Los Angeles, na praia de Venice. Morrison mostrou-lhes algumas letras que escrevera. "Moonlight drive": "Let's swim to the moon / Let's climb to the tide". Os Doors nasciam ali, naquela tarde.

Nascido em Chicago, amante do blues e do jazz, fundaria os Doors com Jim Morrison em 1965. Dois anos depois, com a edição do homónimo álbum de estreia, a banda tornar-se-ia um dos fenómenos da década, atingindo o coração do circuito pop com as letras provocadoras e enigmáticas de Morrison e música que reproduzia na perfeição aquilo que Manzarek definia como uma entrega "dionisíaca" à vida, constantemente no fio da navalha.
Se Morrison era todo ele excesso e descontrolo, Manzarek era o músico metódico que, apoiado pelo guitarrista Robbie Krieger e pelo baterista John Densmore, traduzia em som essa tentação pelo abismo, aproximando a música do precipício, mas impedindo-a de entrar em queda livre.
Até 1971, data da morte de Jim Morrison e da edição de LA Woman, o último álbum do vocalista com os Doors, Ray Manzarek firmou com a banda o seu legado na história da música popular urbana. Álbuns como Strange Days ou Morrison Hotel e canções como Light my fire, The end, When the music's over ou Riders on the storm têm a marca do seu talento que, segundo o próprio, residia mais na liberdade da imaginação que na força do virtuosismo. "Sou basicamente uma espécie de pianista de 'cocktail jazz'. Serei o primeiro a admitir que não sou um teclista muito bom", terá afirmado um dia.
 
Nascido verdadeiramente para a música com os Doors, nunca se libertaria verdadeiramente da sombra da banda (nem, na verdade, parecia desejá-lo). A carreira a solo foi discreta e os Doors, quer nos livros de memórias, quer nas digressões revivalistas, um porto seguro a que regressou sempre. Isso não o impediu, no entanto, de lançar alguns álbuns a solo, com o grupo Nite City, ou de concretizar algumas colaborações com Iggy Pop, Echo & The Bunnymen, X ou Philip Glass.
Robbie Krieger, que o acompanhou nos últimos anos, declarou em comunicado: "Sinto-me feliz por ter podido tocar as canções dos Doors com ele durante a última década. Ray foi uma grande parte da minha vida e irei sentir a sua falta para sempre".
Com Robby Krieger e o cantor Ian Astbury (The Cult), viria a reformar os Doors em 2002, passando por Portugal três vezes: em dois concertos no Pavilhão Atlântico, em Lisboa, no Coliseu dos Recreios e no festival Marés Vivas, em Vila Nova de Gaia.
"Fiquei profundamente triste ao saber da morte do meu amigo e companheiro de banda, hoje. Fico feliz por ter podido tocar canções dos Doors com ele, durante a última década. O Ray foi uma grande parte da minha vida e hei de ter sempre saudades dele", escreveu Robby Krieger.

Recentemente, John Densmore, que se opôs à reunião dos Doors, escreveu um livro sobre a batalha judicial que daí decorreu, admitindo que não se importaria de voltar a tocar com Krieger e Manzarek, desde que o fizesse por solidariedade e não para ganhar dinheiro.

Manzarek deixa a mulher, os dois irmãos, o filho Pablo e três netos.


This is the end
Beautiful friend
This is the end
My only friend, the end
Of our elaborate plans, the end
Of everything that stands, the end
No safety or surprise, the end
I'll never look into your eyes...again
Can you picture what will be
So limitless and free
Desperately in need...of some...stranger's hand
In a...desperate land
Lost in a Roman...wilderness of pain
And all the children are insane
All the children are insane
Waiting for the summer rain, yeah


Mais sobre The Doors:


Bibliografia consultada:
Blitz, DN, Expresso, Público.

segunda-feira, outubro 08, 2012

A Firmeza de Ana Maria Pinto



Firmeza
Sem frases de desânimo,
Nem complicações de alma,
Que o teu corpo agora fale,
Presente e seguro do que vale.
Pedra em que a vida se alicerça,
Argamassa e nervo,
Pega-lhe como um senhor
E nunca como um servo.
Não seja o travor das lágrimas
Capaz de embargar-te a voz;
Que a boca a sorrir não mate
Nos lábios o brado de combate.
Olha que a vida nos acena
Para além da luta.
Canta os sonhos com que esperas,
Que o espelho da vida nos escuta. 

Fernando Lopes Graça





A cantora lírica Ana Maria Pinto que regressou em abril a Portugal, depois de sete anos a estudar e a viver em Berlim, protagonizou um dos incidentes da cerimónia da manhã de comemoração da implantação da República – 5 de Outubro de 2012, ao cantar “Firmeza”, de Fernando Lopes Graça, depois do Presidente da República ter terminado o seu discurso.

Ana Maria Pinto explicou aos jornalistas que foi uma forma de mostrar a sua discordância em relação ao rumo do país. Para ela cantar aquele tema correspondia a um "dever cívico" de resistir. "Estou a cantar em protesto por mim, pelos meus pais (...)". A cantora lírica já tinha cantado “Acordai”, do mesmo autor, à porta do Palácio de Belém no protesto que decorreu no dia do último Conselho de Estado.



sábado, setembro 22, 2012

"Acordai" sacode manifestantes


"Acordai", "canção heróica" de José Gomes Ferreira e Fernando Lopes-Graça, foi cantada, ontem sexta-feira, junto ao palácio presidencial de Belém, em Lisboa, ontem teve lugar o Conselho do Povo iniciativa popular que decorreu paralelamente à reunião dos Conselheiros de Estado com o Presidente da República.

De acordo com a soprano, a cantora lírica Ana Maria Pinto, a escolha de uma das “Canções Heróicas”, de Lopes-Graça, “é um apelo à consciência de todos”, tendo Ana Maria Pinto qualificado a canção como “apropriada ao momento que atravessamos, ao afirmar ‘acendam almas e sóis neste mar sem cais!’”.
A iniciativa, promovida pelas cantoras líricas Ana Maria Pinto e Mónica Monteiro e pela professora de música Sofia Cosme, reuniu já cerca de meio milhar de adesões na rede social Facebook, nomeadamente membros de grupos corais.
“Será um momento humanista, especial e belo, com o melhor que a nossa cultura tem para oferecer”, disse Ana Maria Pinto.
A concentração principiou 17:30, junto à fonte luminosa, na Praça do Império, seguindo até à praça Afonso de Albuquerque, em frente ao palácio presidencial, onde, às 18:00, interpretaram “Acordai”, com grande sucesso, junto de milhares de pessoas que engrossavam o Conselho Popular.
“A cultura é um veículo importantíssimo para consciencializar e sensibilizar as pessoas, nomeadamente em momentos como o actual, em que é urgente falar à alma muito mais que à matéria”, sentenciou.
Integrando-se no contexto dos protestos contra a política de austeridade e a intervenção da troika, Ana Maria Pinto afirmou: “Estou do lado dos mais fragilizados; eu sou uma fragilizada”.
“Sinto, tal como escreveu Gomes Ferreira, que Portugal é um país à deriva sem faróis”, disse.
A cantora lírica afirmou estar contra “esta política neoliberal de privatizações que delapida o património que os nossos pais construíram e que não serve o povo, mas os interesses das empresas que seguem princípios imorais”.
Ana Maria Pinto é “contra as privatizações dos serviços de água, electricidade, da RTP, e de outros”.
Referindo-se à sua área de trabalho, a cantora afirmou que, depois de ter estudado em Berlim, onde viveu sete anos, decidiu vir para Portugal, onde “são cada vez menores as possibilidades de exercer a profissão”.
A soprano criticou também “o regime de recibos verdes a que estão condenados todos os músicos portugueses se querem trabalhar”.
“Sou uma cidadã e quero participar activamente na democracia do meu país e daí esta urgência de chamar as pessoas à consciência”, rematou Ana Maria Pinto.


e ainda:





sexta-feira, agosto 17, 2012

Liberdade para as Pussy Riot 2



O Tribunal de Moscovo considerou as três jovens do grupo punk russo culpadas, avança a Reuters. Nadejda, Ekaterina e Maria foram acusadas de crimes de vandalismo e incitação ao ódio religioso depois de participarem numa manifestação contra Putin dentro de uma igreja ortodoxa. 




Pussy Riot Vs Rússia
"As cantoras do grupo punk conspiraram com o propósito de violar a paz pública ofensivamente, num sinal de desrespeito flagrante para com os cidadãos", declarou o tribunal, segundo a agência de notícias Interfax, acrescentando que “as mulheres foram motivadas pela inimizade religiosa e pelo ódio, agindo de maneira provocante e insultuosa dentro de um edifício religioso e na presença de um grande número de crentes ", disse o tribunal.
Durante a leitura da sentença, a juíza Marina Syrova repetiu em parte os argumentos da acusação, que pede três anos de prisão para as jovens pelos crimes de “vandalismo” e “incitação ao ódio religioso”.
A juíza sublinhou que as acusadas não manifestaram arrependimento e que “violaram a ordem pública” e “ofenderam os sentimentos [religiosos] dos crentes”.



Os advogados de defesa pediram a absolvição das três jovens. A pena máxima por “vandalismo” é de sete anos de prisão.
À porta do tribunal vários apoiantes das Pussy Riot gritam palavras como "vergonha" e "escumalha Putin", protestando contra o veredicto.




O protesto
Com as caras cobertas por balaclavas, máscaras que tapam todo o rosto excepto olhos e boca, as jovens entraram, a 21 de Fevereiro, numa catedral ortodoxa de Moscovo e cantaram uma canção de protesto contra o Presidente russo Vladimir Putin.
Nadejda Tolokonnikova, de 22 anos, Ekaterina Samoutsevitch, de 29, e Maria Alekhina, de 24 foram detidas em Março e estiveram desde então sob custódia policial.
O julgamento começou a 30 de Julho e, enquanto a acusação pedia uma condenação de três anos de cadeia, a defesa queixou-se de ter o trabalho dificultado, pela impossibilidade de chamar testemunhas ou por ver as suas perguntas permanentemente rejeitadas pela juíza.
A presidente do tribunal Khamovnitcheski de Moscovo, Marina Syrova, responsável pelo julgamento dos três elementos do grupo ‘punk’ feminino Pussy Riot, foi colocada sobre protecção estatal na véspera da leitura da sentença devido a ameaças feitas por apoiantes da banda, indicou ontem uma porta-voz da instância judicial.





Figuras de peso defendem as Pussy Riot
O caso das Pussy Riot está a provocar várias divisões na sociedade russa, além de ter alcançado um grande mediatismo internacional. Madonna, Peaches, Sting, Red Hot Chilli Peppers, Yoko Ono e Paul McCartney são algumas das personalidades que já se manifestaram em defesa das jovens.
A Amnistia Internacional entregou ontem uma petição em favor do grupo punk com cerca de 10 mil assinaturas, segundo a organização, a um guarda através do gradeamento da embaixada russa em Londres, que estava encerrada.
Do universo político, as mensagens de apoio chegaram de 120 deputados do Parlamento alemão e do ministro checo dos Negócios Estrangeiros.
Face ao mediatismo que este caso angariou, até o Presidente russo Vladimir Putin se manifestou, pedindo “clemência” no julgamento das jovens.
O marido de Nadezhda Tolokonnikova, uma das três músicas da banda Pussy Riot que foram condenadas nesta sexta-feira a dois anos de prisão por vandalismo motivado por ódio religioso, reagiu à sentença com um apelo ao derrube do regime. "A única coisa que pode salvar a minha mulher e a minha fílha é uma revolução. Vamos fazê-la", terá dito, segundo a edição online do 'Wall Street Journal'.

Liberdade para as Pussy Riot



“As Pussy Riot são - e tomando momentaneamente de empréstimo um dos lemas dos Clash - a única banda que realmente interessa. Quase não importa o que diz o tribunal. As três mulheres das Pussy Riot - um explosivo e irritante cruzamento entre um grupo musical e um anónimo movimento de dissidentes russos - já conseguiram, de uma maneira muito significativa, vencer a farsa de julgamento a que estão a ser sujeitas em Moscovo (e cuja sentença foi conhecida hoje dia 17). Cada dia do seu julgamento por "vandalismo motivado por ódio religioso" chamou a atenção da comunidade internacional para a repressão paranóica na Rússia de Vladimir Putin.
As Pussy Riot entalaram Putin nos cornos de um dilema: ou o seu Governo condena a banda e aumenta ainda mais o seu estatuto de mártires, ou recua e reconhece que acusar o trio mascarado devido a um cacofónico protesto musical na Catedral de Cristo Salvador que chamou a atenção da aliança da Igreja russa com o regime de Putin terá sido sempre um erro. Três dos cinco membros da banda enfrentam agora a possibilidade de passar sete anos na prisão, o que está a causar um inesperado repúdio internacional. Na semana passada, antes de um encontro com o primeiro-ministro britânico David Cameron, Putin terá admitido que preferia recuar.
Isto é algo que não era suposto acontecer. Para começar, os dissidentes não se dão bem na Rússia "putinista"; depois, o punk rock - o filho ilegítimo, mais sujo, mais esperto e mais irritante do rock"n"roll - normalmente não vence. O movimento punk tem um longo historial de aspirações a rebentar com governos corruptos e autoritários, multinacionais e outras estruturas de poder internacional. Mas não tem um longo historial de sucessos.

Assim, o punk rock decidiu-se por objectivos políticos mais atingíveis, menos globais: normalmente, protestos localizados e atrair atenções e despertar consciências. As Pussy Riot, que ainda há poucos meses eram um grupo obscuro, são agora um fenómeno internacional: as três detidas foram consideradas prisioneiras de consciência pela Amnistia Internacional e a banda tornou-se o ai-jesus dos intelectuais russos, que há tanto tempo sofrem e que agora se juntaram em defesa das três artistas. E se bem que ninguém fale do grupo pela sua música, uma olhadela para a história dos anteriores sucessos geopolíticos do punk rock mostra que as Pussy Riot já os ultrapassaram - e talvez tenham dado ao punk rock um futuro como uma força global para a justiça e a liberdade.
Não demorou muito até o que o punk se afastasse do niilismo sem futuro dos Sex Pistols, o lendário grupo inglês da segunda metade dos anos 70 que basicamente iniciou o punk rock. Os Clash rapidamente viraram a atenção do punk para lutas globais. Joe Strummer, uma das forças criativas dos Clash, colocou o punk rock a cantar acerca da Guerra Civil de Espanha, as classes exploradas da Jamaica, o martírio do poeta de esquerda chileno Victor Jara, e mesmo, num disco intitulado Sandinista!, sobre as vítimas do comunismo soviético e chinês.
Na Irlanda do Norte, os seus contemporâneos Stiff Little Fingers cantaram o aparecimento de um tipo diferente de revolta - a banda chamou-lhe uma "força anti-segurança", dado que o grupo se opunha às milícias locais que apoiavam os britânicos - em Alternative Ulster. O punk fracturou-se em incontáveis subgéneros obscuros e espalhou-se a nível mundial, mas um tema comum manteve-se: resistência face ao poder global arbitrário e brutal, algo que pode ser percebido em todo o lado, desde o punk "crust" dos britânicos Discharge ao hardcore melódico dos canadianos Propagandhi e ao folk abrasivo dos Against Me!, da Florida. O punk canalizou a angústia juvenil para um catecismo antiguerra, antigoverno e anticapitalismo.

Mas essas ambições não alcançaram resultados geopolíticos palpáveis. Talvez o ponto alto da importância geopolítica do punk tenha vindo de uma banda britânica que já tinha deixado para trás o seu período mais criativo de finais da década de 70. Pioneiros de um tipo de punk particularmente agressivo - reconhecível pela militante e imparável batida da bateria -, os Crass definiam-se pela anarquia, pelo pacifismo e pelo humor (por vezes de forma totalmente isenta de humor). Mas foi necessária uma guerra a sério, nas ilhas Falkland, para que os Crass, então já longe do seu período áureo, se metessem em acção.
Um single, tipicamente cáustico, perguntava à primeira-ministra Margaret Thatcher, no título, How does it feel (to be the mother of a thousand dead? [Qual é a sensação (de ser a mãe de mil mortos)?] Contra todas as expectativas, chegou ao primeiro lugar do top independente, e levou o deputado conservador Tim Eggar a tentar levar os Crass a tribunal, sob a alçada de uma lei antiobscenidade. Escapando às autoridades, os Crass engendraram uma partida que prenunciava o sucesso das Pussy Riot. Em 1983, a banda, de forma secreta, cedeu a jornalistas crédulos uma cassete que supostamente revelava uma conversa entre Thatcher e o Presidente norte-americano Ronald Reagan. Parecia confirmar a paranóia esquerdista acerca de ambos os líderes conservadores: discutindo a situação nas Falkland, Reagan parecia aconselhar moderação a uma Thatcher sedenta de sangue; Thatcher punha Reagan a divagar sobre sacrificar a Europa numa disputa nuclear com os soviéticos.

A cassete rapidamente se elevou a incidente internacional. O Departamento de Estado e a CIA afirmaram que era uma manobra de desinformação soviética: "Este tipo de actividade encaixa-se no padrão de falsificações que o KGB soviético faz circular, apesar de normalmente envolverem documentos falsos e não fitas magnéticas", podia-se ler numa declaração oficial do Departamento de Estado. O jornal inglês Sunday Times publicou um artigo intitulado Como o KGB enganou a imprensa ocidental. Após terem marcado a sua posição e os governos terem ficado embaraçados, membros dos Crass admitiram à agência Associated Press que tinham sido eles, e não os soviéticos, os arquitectos do embuste.
Quase 30 anos depois, a agitação já foi esquecida. Os Crass são mais recordados pelos seus dois primeiros álbuns, The Feeding of the 5000 e Stations of the Crass, do que pelas chamadas "cassetes do Thatchergate". Para pessoas como eu, que continuam a levar a sua música demasiado a sério, isso infelizmente diz muito acerca da relevância geopolítica do punk rock.

Desde então, e partindo do princípio que o punk tem objectivos políticos - e tem havido sempre dentro da cena punk um contingente considerável que discorda dessa proposição -, eles têm-se manifestado de duas formas: protesto e desafio local. A lendária cena punk hardcore de Washington nos anos 80 simboliza a primeira forma. No Verão de 1985, um ano que os punks ao longo dos Estados Unidos relembram como o "Verão da Revolução" da capital, punks locais como Guy Picciotto da banda Rites of Spring levaram percussões para a porta da embaixada da África do Sul para incomodar os representantes do regime do apartheid. "Pensámos em injectar alguma espontaneidade", recorda Picciotto, que se sentia insatisfeito com os protestos habituais e repetidos de então.
Jeff Nelson, co-fundador da seminal editora hardcore de Washington Dischord Records, encheu paredes da zona no Natal de 1987 com posters a ridicularizar o procurador-geral Ed Meese. O Ministério da Justiça declarou que a propaganda pública era "ofensiva", a sua origem desorientou o jornal Washington Post. Pouco depois, os Fugazi - a banda seguinte de Picciotto e principal nome da Dischord - dariam concertos no National Mall, parque entre o Capitólio e o Monumento de Washington, denunciando a Guerra do Golfo.

A outra opção tem sido a acção localizada - quer para mudar comunidades locais ou para alterar a forma como as pessoas que são expostas ao punk rock vêem o mundo. Em cada cidade americana que tem uma cena punk - ou seja, em todas as cidades americanas - pode-se encontrar os seus membros em parques, normalmente nos fins-de-semana, a cozinhar comida vegetariana para distribuir grátis a quem vier, ao que juntam panfletos contra a guerra, num ritual político denominado Food Not Bombs. Em alternativa, outras bandas têm trabalhado para dessacralizar o próprio punk, uma subcultura esmagadoramente branca, masculina e heterossexual. Uma das melhores bandas dos anos 90, Los Crudos, de Chicago, era composta apenas por elementos de ascendência latina e cantavam exclusivamente em castelhano, provocando assim a juventude branca e levando-a a questionar o que é ser um outsider cultural; o seu vocalista, Martin Sorrondeguy, mais tarde fundou os Limp Wrist, um caso raro: uma banda hardcore assumidamente homossexual.
Todos estes esforços significam imenso para os milhões de pessoas cujas vidas têm sido enriquecidas pelo punk, que, no seu melhor, instila uma ética de responsabilidade pessoal e auto-suficiência que os de fora podem achar difícil de conciliar com a estética caótica do punk. (Afinal de contas, quando salas grandes não aceitam que a nossa banda toque, temos nós que construir uma rede de caves e sofás para a digressão.)
Mas não têm significado muito para os temas internacionais - reconheçamos, um objectivo quase impossível para algo que continua a ser um movimento de jovens. Os protestos punk têm-se tornado uma espécie de fim em si mesmos - Protest and Survive, como cantavam ironicamente os Discharge -, uma medalha de mérito para ganhar ou um ritual para os punks protegerem. Nas suas letras, o punk ainda afronta a guerra e as injustiças - Asesinos, dos Crudos, é sobre o apoio dos Estados Unidos aos ditadores da América Central, e continua a impressionar -, mas, como acontece com a maioria dos artistas, o seu impacto geopolítico é marginal. O lema da veterana editora anarco-punk de Minneapolis Profane Existence é - de forma reveladora e de algum modo patética - Making Punk a Threat Again (Tornar novamente o punk ameaçador).
As Pussy Riot poderão não inverter esta tendência. O punk continua a ser essencialmente um fenómeno do mundo ocidental, o que significa, tal como os Propagandhi diziam, que "reconheço a ironia de que o sistema a que me oponho me permite o luxo de morder a mão que me dá de comer". Os punks que na realidade não vivem sob governos autoritários não enfrentam os mesmos riscos que os membros das Pussy Riot. Se o punk rock se mobilizou em força contra a Guerra do Iraque em 2003, editando álbuns para angariar fundos para organizações de activistas e organizando concertos contra a guerra no National Mall, não atraiu a atenção de George W. Bush, as Pussy Riot, pelo contrário, claramente atraíram a atenção de Putin.

Mas talvez seja necessário um punk visionário para efectivamente reconhecer o potencial das Pussy Riot. Na revista de cultura alternativa Dazed & Confused, Tobi Vail disse sobre a banda russa: "O seu método de protesto depende do anonimato. Elas criaram um método de protesto cheio de possibilidades e que pode ser utilizado a nível global, ultrapassando as fronteiras internacionais. Putin pode encarcerar membros do colectivo, mas como pode ele impedir a possibilidade de novos membros se juntarem ou impedir que o movimento se propague para além da Rússia?"
Se há alguém que sabe acerca da criação de um método de protesto repleto de possibilidades e aplicável para além das fronteiras internacionais, esse alguém é Vail, uma das figuras mais inspiradoras que o punk rock já produziu. A banda em que tocava bateria, Bikini Kill, transcendeu as suas raízes punk para se tornar naquele que pode ser considerado o grupo de rock feminista mais importante de sempre. O movimento "riot grrrl" que as Bikini Kill ajudaram a forjar representou uma linha de demarcação para as mulheres que exigiam representação numa cultura underground exageradamente masculina, e rapidamente se expandiu a nível global. As cáusticas apresentações ao vivo das Bikini Kill eram eventos políticos em miniatura. Elas instigaram as mulheres a que ousassem ser quem elas quisessem ser, e exigiram que os homens se confrontassem com os seus privilégios, mais do que se congratularem por serem suficientemente abertos para irem ao espectáculo.De facto, consideremos aquilo que Vail percebeu. As Pussy Riot actuaram de forma anónima numa igreja de Moscovo, as caras cobertas com balaclavas coloridas. Podiam ser qualquer pessoa, e isso poderá ser a inspiração para as próximas Pussy Riot. Por coincidência, quando o seu julgamento começou, o fanzineMaximumrocknroll, a publicação mais influente do punk, publicou a sua edição de trigésimo aniversário.
O único artigo acerca do impacto que o punk continua a ter a nível internacional debruçava-se sobre as Pussy Riot - um implícito reconhecimento que aquelas três mulheres não apenas envergonharam Putin e apontaram para o seu banditismo, mas também redimiram as aspirações de uma cultura de protesto global.”

Spencer Ackerman, (Wired.com)

quinta-feira, janeiro 19, 2012

Gabriel Pensador, até quando?



Até quando?
Não adianta olhar pro céu
Com muita fé e pouca luta
Levanta aí que você tem muito protesto pra fazer
E muita greve, você pode, você deve, pode crer
Não adianta olhar pro chão
Virar a cara pra não ver
Se liga aí que te botaram numa cruz e só porque Jesus
Sofreu não quer dizer que você tenha que sofrer!
Até quando você vai ficar usando rédea?!
Rindo da própria tragédia
Até quando você vai ficar usando rédea?!
Pobre, rico ou classe média
Até quando você vai levar cascudo mudo?
Muda, muda essa postura
Até quando você vai ficando mudo?
muda que o medo é um modo de fazer censura

Até quando você vai levando? (Porrada! Porrada!!)
Até quando vai ficar sem fazer nada?
Até quando você vai levando? (Porrada! Porrada!!)
Até quando vai ser saco de pancada?

Você tenta ser feliz, não vê que é deprimente
O seu filho sem escola, seu velho tá sem dente
Cê tenta ser contente e não vê que é revoltante
Você tá sem emprego e a sua filha tá gestante
Você se faz de surdo, não vê que é absurdo
Você que é inocente foi preso em flagrante!
É tudo flagrante! É tudo flagrante!!

A polícia
Matou o estudante
Falou que era bandido
Chamou de traficante!
A justiça
Prendeu o pé-rapado
Soltou o deputado
E absolveu os PMs de Vigário!

A polícia só existe pra manter você na lei
Lei do silêncio, lei do mais fraco
Ou aceita ser um saco de pancada ou vai pro saco
A programação existe pra manter você na frente
Na frente da TV, que é pra te entreter
Que é pra você não ver que o programado é você!
Acordo, não tenho trabalho, procuro trabalho, quero trabalhar
O cara me pede o diploma, não tenho diploma, não pude estudar
E querem que eu seja educado, que eu ande arrumado, que eu saiba falar
Aquilo que o mundo me pede não é o que o mundo me dá
Consigo um emprego, começa o emprego, me mato de tanto ralar
Acordo bem cedo, não tenho sossego nem tempo pra raciocinar
Não peço arrego, mas onde que eu chego se eu fico no mesmo lugar?
Brinquedo que o filho me pede, não tenho dinheiro pra dar!
Escola! Esmola!
Favela, cadeia!
Sem terra, enterra!
Sem renda, se renda! Não! Não!!

Muda que quando a gente muda o mundo muda com a gente
A gente muda o mundo na mudança da mente
E quando a mente muda a gente anda pra frente
E quando a gente manda ninguém manda na gente!
Na mudança de atitude não há mal que não se mude nem doença sem cura
Na mudança de postura a gente fica mais seguro
Na mudança do presente a gente molda o futuro!

Até quando você vai ficar levando porrada,
até quando vai ficar sem fazer nada


sábado, dezembro 17, 2011

Cesária Évora, a Diva dos pés descalços deixou-nos



É verdade, Cabo Verde e toda a Lusofonia perderam uma das maiores vozes de sempre.
Cesária Évora deixou-nos mais tristes este sábado. Morreu com setenta anos no Hospital Baptista de Sousa, da ilha de São Vicente, onde se encontrava internada desde a passada sexta-feira. Natural do Mindelo, nasceu no seio de uma família de músicos. Numa das muitas entrevistas que deu, certa vez, afirmou: "tudo à minha volta era música". O pai, Justiniano da Cruz, tocava cavaquinho, violão e violino, instrumentos que se tornaram característicos daquelas ilhas, o irmão, Lela, saxofone, e entre os amigos contava-se o mais emblemático compositor cabo-verdiano, B. Leza.
"Cize" como era carinhosamente tratada pelos amigos, tornou-se no nome mais internacional de Cabo Verde, país de onde o mundo conhecia já grandes músicos como Luís Moraes e Bana.


Desde cedo que Cesária Évora se lembrava de cantar, como referiu numa das muitas entrevistas que deu: "Cantava ao ar livre nas praças da cidade para afastar coisas tristes". Aos 16 anos canta nos bares das cidade e nos hotéis começando a ganhar uma legião de fãs que a aclamavam já como
"rainha da morna".
A independência da nação africana, em 1975, coincide com o início de um "período negro" da cantora que deixa de cantar, tem problemas com o alcoolismo e trabalha noutra área.
Em 1985 a convite de Bana, proprietário de um restaurante e uma discoteca com música ao vivo em Lisboa, Cize vem a Lisboa e grava um disco que passou despercebido à crítica, seguindo para Paris onde é "descoberta" e daqui, como aconteceu com outros cantores, partiu para os palcos do mundo.
Em 1988 grava "La diva aux pied nus", álbum aclamado pela crítica. Nesta fase da sua carreira tem um papel fundamental, que se manteve até ao final, o empresário francês José da Silva. 


Em 1992 Cesária Évora gravou "Miss Perfumado" e aos 47 anos torna-se uma "estrela" internacional no mundo da world music, fazendo parcerias com importantes músicos e pisando os mais prestigiados palcos.
Uma carreira internacional que passou várias vezes por palcos portugueses cujas salas esgotavam para ouvir, entre outros êxitos, "Sôdade".
Em 2004 recebeu um Grammy para o Melhor Álbum, de world music contemporânea pelo disco "Voz d'Amor". "Cize" não pára e continua em sucessivas digressões, regressando de quando em vez à sua terra natal.
"Eu preciso de quando vez da minha da terra, do povo que sou e desde marulhar das ondas", confidenciou certa vez à Lusa.
A cantora começa a enfrentar vários problemas de saúde e alguns "sustos" como afirmava, mas regressava sempre aos palcos e aos estúdios com alegria.
Cesária voltou aos estúdios e anunciou não só uma digressão como a gravação de um novo que deveria sair no próximo ano.
No dia 24 de Setembro numa entrevista ao Le Monde a cantora afirma que tem de terminar a carreira por conselho médico. A sua promotora, Tumbao, emite um comunicado confirmando as declarações da "diva dos pés descalços", e dando conta da tristeza que sentia por ter de o fazer. Nesse mesmo dia ao princípio da tarde a cantora é internada no hospital parisiense de Pitie-Salpetriere, por ter sofrido "mais um acidente vascular cerebral (AVC)". A Tumbao emitiu nesse mesmo dia um comunicado dando conta que o diagnóstico clínico da mais internacional artista cabo-verdiana era "reservado".
Ao longo da carreira, além das inúmeras digressões e actuações em televisões, gravou 24 álbuns, um DVD, "Live in Paris", e registou dezenas de colaborações em discos.
A cantora cabo-verdiana será sempre lembrada como a diva que levou a música de Cabo Verde ao Mundo. Verdadeira força da natureza rude e selvagem das ilhas estéreis e desertas.
Cesária Évora era mais que a voz da Diáspora, para todos aqueles que gostam de world music e da música não comercial. Cesária era a voz quente da Terra, era muito mais que a voz das ilhas do Atlântico.


Era a Voz de todos nós!
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